quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A cidade de Sophia




O conhecimento é como uma cidade
onde cada rua leva o nome de um pensador indicando um caminho que se pode seguir.
Estas estão organizadas em ordem lógica
de modo que ao se seguir um pensador desembocar-se-á em outro
podendo-se caminhar por entre todo o conhecimento humano.
Porém, como toda cidade existem os limites
e é ai que devemos construir
nossa própria rua

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Transeunte





Percorro o sonho terrestre invisível como o vento noturno
que chacoalha a relva e lhe cava túneis
sibilando rasteiro nas trevas da noite banhadas no prata da lua
Cavalgando instantes nos galopes do tempo
enquanto invento a vida

Percorro o sonho terrestre apreciando os seres,
transitando sonhos alheios,
e divagando dúvidas, pois a certeza pertence às pedras.

Movo-me mudo, azul, como uma nuvem contra o céu noturno
ou mergulho a tormenta dos oceanos profundos dos corações distantes
Existo como brisa calma e fogo selvagem

Percorro o sonho terrestre paciente como um escultor,
buscando formas enquanto entalho idéias.
Percorro o real terrestre vivendo o mais profundo dos sonhos
através destes dias reais







quinta-feira, 15 de julho de 2010

Traje da aragem de aurora





A mãe das marés lança noturna seu beijo neon sobre as águas

permanecidas extensamente perdidas à vencer o horizonte

Sentado sobre a distância dos ventos contemplo o deserto líquido sem ousar sequer gota

e esse meu fixo olhar esférico que atravessa os tempos

abarca as noites e os dias que se teceram no espaço


Trajo a aragem da aurora, a oculta túnica dos ares celestes

e da densa estrela que despenca do alto dançando suas chamas no céu escuro

dou luz à meu corcel azul flamejante


Assim, crepitante, cavalgo rasantes ventosos

desenhando rastros tremeluzentes sobre a superfície das águas

sem ousar ondas ou o despertar do furioso dragão-marinho que jaz adormecido

sábado, 26 de junho de 2010

Sonho verde



É a brisa que aviva excitando os galhos e as folhas
das árvores que farfalham voluptuosos gemidos
e propaga o crocitar selvagem das vidas rasteiras
que se escondem no labirinto verde

Ou é a água que percorre tortuosos caminhos
banhando raízes e alcança as aldeias dos povos pintados,
das nações enfeitadas que vestem à floresta
e dançam a alucinante lua fantasma vacinados de sapo

É a vida que transa com a terra e lhe deposita raízes
e brota ereta, fálica, precisa no rumo amarelo do sol
dando guarida ao colorido dos pássaros
ou sombra àqueles seres que perambulam silentes sobre o solo marrom

Ou é a sinfonia dos ventos que passeiam entre os troncos
e dançam redemoinhos de folhas secas e amarelas e ocres
espalhando o aroma úmido das exóticas flores silvestres
que graciosamente concorrem o espaço

É o sonho verde ultimo do homem humano que desastra a terra
tornando concreto sua existência
Trocando a caricia das matas pelo conforto acinzentado
das engenhosas torres que rasgam o céu

terça-feira, 22 de junho de 2010

Exposição "Retratos poéticos" SESC/PVH




Gostaria de convidar
A todos que por ventura navegarem no blog
para exposição de retratos e poesias:

"Retratos Poéticos"

onde busco um diálogo poético com o mundo imagético
das cativantes
fotografias de Michele Saraiva




SESC/CENTRO de PVH Entre 07 à 30/06/2010











Sites que divulgaram:

http://transparenciarondonia.com.br/2010/06/07/exposicao-fotografia-e-poesia-nesta-terca-feira-08-no-sesc-centro/

http://www.rondoniaovivo.com/news.php?news=63916

http://www.cnro.com.br/noticia.php?id=31267

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Aroma ausente
















(Foto: Michele Saraiva)

Ausência de rosas deserta meu ser
Qu’em aridez se desola
ao vibrar do silêncio sinfônico
e circunda-me a lacuna infecunda
do carente vazio eleitor do meu nada
que divaga a dança incerta das folhas ao vento

A poeira esvoaçante dos sonhos estéreis,
lembrança da ultima morte do si,
tempestuosamente desfragmentam meu corpo
e me confunde o ermo deserto

O ser ainda assim insiste a presença
e na chuva gélida das dores funestas tornadas lágrimas,
qu’inda embaçam a colérica visão,
encontra acento aos fragmentos do eu,
que habitavam insólitos a incerteza dos ventos secos,
esculpindo formato de nova existência

...e ‘alma que desliza a superfície do dilúvio
encontra ilha que cultiva um acanhado desejo de eu
a rasgar a atmosfera exalando tímido odor que possa desfazer teu
aroma ausente

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Inverno nu

(Nietzsche por Edvard Munch)



Por entre a chuva espessa que transmuta a calma noite em dilúvio,
jorrando à cântaros de um céu negro salpicado em relâmpagos
aos bramidos retumbantes das trovoadas insanas que propagam a ira dos deuses
acovardando mortais sob seus cobertores mofados,
correrei afrontando os raios gritantes, intentando surfá-los

Ou no inverno selvagem quando criaturas tiritantes
de ossos congelados esconderem-se sob seus grossos tecidos
gemendo lerdos à beira de largas lareiras crepitantes
rasgarei minhas vestes e atearei fogo

e correrei nu por sobre a brancura da neve que ao despencar dos céus
encortina a atmosfera atapetando o solo da gélida noite tenebrosa
cantado insano o hino dos que agonizam os velhos tempos:
Rasga tuas vestes elas já não te servem mais

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tez poética



Encanta-me a forma com que teus expressivos olhos úmidos
como chuva fina que convida o aconchego
levam-me a perceber o ardor dos teus lábios vermelhos
que surgem de tu’alva face de musa como o desabrochar de uma rosa
apresentando-me sempre sorriso intenso

E tua tenra pele me recorda aroma botânico
de pureza libertina
Visto-te compridos brincos de tiras de prata
que reluzem o fulgor destes teus planetas em forma de olhos
por vezes ocultos entre os anéis das tuas melenas cortinais ao sabor do vento

Absorve-me em sensual devaneio
em teu deslizar sobre a terra como quem ensaia voejar
e a carícia dos ventos diurnos sobre o tecido florido
do vestido que te proíbe o corpo
me transmuta desejos

O tecido floral que te esculpe contra a brisa lusco-fusco
lembram-me a leveza visual d’estatua grega ou romana
que agraciou-se de vida e intentou desfile entre seres humanos
Tua tez ao vestir ensolarados sorrisos de várias graças
confundem-me ainda teu meigo ser com sublime poesia

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sonho infanto
















(Foto: Michele Saraiva)


Meu real é sonho infanto
onde cavalgo corcel mecânico de aço enferrujado
a quem empresto asas

Em excursões fantásticas
através de dimensões somente minhas
Recuso estar duas vezes no mesmo lugar

Meu sonho é real infanto
onde passeio espaços
que não servem à real gravidade

Sou mago de magia imaginária
e o ingênuo mistério dos meus feitiços consiste apenas
em ainda não ter aprendido que só existe um mundo




quinta-feira, 6 de maio de 2010

Do assassínio dos pudores


Foi grito horrível e desfigurado
o que se fez ouvir
quando o assassinato sanguinolento dos pudores se deu
pela força de uma nova vontade
que surgia pura

Foi também grito satânico e escárnio poético
o que ecoou pelos ares profanos
da hipócrita cidadela e que em outras palavras
não pronunciavam nada além do que:
Vive La liberté, vive le corps!

O alarido das tropas inumanas, que camuflavam a existência
transfigurando-a em matéria incolor
foi urro de terror para aqueles que temiam existirem de fato,
mas foi também trombeta de anunciação
e música heróica para aqueles que ousaram cantar...

O defunto pudico esfacelado sobre as pedras da viela noturna
compunha agora um solo escarlate,
em um vilarejo antes sem cor e sem vida, perdido na excessiva rotina
composta por aqueles que se ocultavam por detrás de um mantra negro
jamais compreendido, nem mesmo pelo mais sabio dos humanos, a que chamavam: Verdade!

O hediondo grito
que reverberou pelas ruelas da sólida vila
foi para ouvidos mais sensatos um viva poémico de um novo saber
que aquém de pretender enfadonhas buscas ilusórias por verdades apenas anunciava:
Eu me proclamo a favor do corpo!