Tu mesmo estavas triste e recolhido
À olhar o Mar
E achá-lo pequeno
Mas não era o Mar pequeno
Eram teus olhos!
Eram teus olhos!
São teus olhos que limitam o tamanho do Oceano
São teus olhos!
Cada dia é um gosto
Cada segundo um momento
O que se repete são os números, não as horas
Cada coração é um estado
Cada verbo um desejo
O que se repete são as palavras não o que se diz
Cada pensamento é um lugar
Cada amor um amar
O que se repete são os toques, não os beijos
As coisas não se repetem
apenas refletem
e na vaga ilusão das memórias a temos como mesmas
Como as ondas
Como as eternas ondas
vistas sempre iguais contra as pedras sem nunca serem as mesmas
De um gosto pesado e profundo
obstruindo gargantas
como pedras sobre cartas
De palavras encarceradas no medo,
pulsando nos poros,
vermelhas como as faces da cólera
De peitos encarecidos pelas adquiridas
formas brilhantes de pedra
Corações de diamante
cristalizados pelas idosas lágrimas
e de olhares opacos, presos ao chão pelo peso dos anos
Amarelas lembranças, pálidas feito dias sem fogo,
propagam sabores irradiados no vento
amargos como palavras de mágoa,
secretos como cultos pagãos,
latentes feito desejos proibidos
E na surdez, no silêncio escondido dos corações lapidados,
há um revolto mundo rochoso, mudo, não dito,
buscando formas camufladas e simbióticas
se expressando como quimeras
